A expedição oceânica Vuelta Vertical, que pretende alcançar latitudes extremas nos dois círculos polares atravessando os cinco oceanos, acaba de atingir o Pacífico Sul depois de completar 5.800 milhas náuticas (cerca de 10.742 km) desde a Cidade do Cabo, na África do Sul. A travessia está a ser realizada a bordo do Alegría Marineros, um veleiro de alumínio de 68 pés.
A tripulação, composta por sete navegadores, soma agora 37 dias consecutivos no mar, numa das etapas mais exigentes do projeto, navegando entre os 47º e 48º de latitude sul — uma zona conhecida pelos ventos fortes e ondulação severa. Durante esta fase, enfrentaram ventos sustentados de 35 nós, rajadas que chegaram aos 63 nós e ondas entre 3 e 4 metros, com picos de 6,5 metros.

A estratégia seguida por Paula Gonzalvo e Pedro Jiménez, com apoio de ferramentas meteorológicas, consistiu em navegar contornando as depressões pelo seu quadrante nordeste, aproveitando o vento sem entrar nas zonas mais severas.
Atualmente, a expedição navega a sudoeste da Nova Zelândia e mantém rumo a Valdivia (Chile), onde prevê chegar a 3 de maio. Ainda restam cerca de 5.200 milhas náuticas (aproximadamente 9.630 km), o equivalente a mais 25 dias de navegação.
Vida a bordo: autossuficiência e resiliência
Depois de mais de cinco semanas no mar, a convivência entre os tripulantes continua “muito boa”, segundo a própria equipa — um fator que consideram “quase tão importante quanto a meteorologia” numa etapa tão longa e isolada.

A autossuficiência tem marcado o quotidiano da expedição. A gestão de energia, combustível, água e alimentação tem sido feita de forma totalmente autónoma. Os alimentos frescos já se esgotaram e a dieta baseia‑se agora em arroz, massa, congelados e conservas, uma realidade comum nas grandes travessias oceânicas.
Episódios críticos no mar do Sul
A 24 de março, a tripulação enfrentou dois episódios particularmente violentos provocados por ondas isoladas de grande dimensão. No primeiro incidente, um golpe de mar lançou os tripulantes de bombordo para estibordo dentro do salão, causando contusões e um corte na sobrancelha de um dos navegadores, além de danos no mobiliário interior. A situação foi estabilizada graças à intervenção de Yammel, paramédica da equipa, com apoio remoto de uma rede médica de emergência.

Apenas uma hora depois, uma segunda onda provocou uma escora extremamente violenta. Foi o momento mais perigoso da etapa: o capitão Pedro Jiménez encontrava‑se no convés e conseguiu antecipar o impacto, segurando‑se a tempo. O incidente partiu uma antena Starlink e um painel solar, ambos substituídos com material de reserva.
Apesar das condições duras, o estado geral do veleiro é considerado bom, com manutenção em dia e algumas reparações previstas para a chegada ao Chile. A expedição continua também a recolher amostras científicas. Recorde-se que a Vuelta Vertical é uma expedição que combina navegação, ciência e divulgação, seguindo uma rota única por algumas das águas mais desafiantes do planeta. Depois de deixar para trás o Índico, o próximo marco será a chegada a Valdivia, antes de continuar a volta ao mundo rumo às latitudes extremas do Ártico e da Antártida.















